novembro 29, 2004

Apesar de tudo apostamos na regionalização.

O Carlos lembrou, num comentário à posta abaixo, que o concelho de Matosinhos 'leva meio Alentejo'.
O António José Brito, Director do Baixo Alentejo, demarcou-se (Aleluia!!) ligeira, mas significativamente, da posição obsessiva dos dirigentes socialistas do Distrito de Beja. Fê-lo ao considerar a regionalização como uma necessidade, sem se ater a Baixos, Litorais, Centros, Nortes, às esquerdas, às margens... enfim! Referiu-se aos benefícios da regionalização e referiu que as autarquias têm contrariado muito o centralismo reinante neste país.
Independentemente de considerar ridícula a denominação de Área Metropolitana do Alentejo é esta a aposta que melhor defende a nossa Região.
A propagandeada (e estupidamente ridícula) Comunidade Urbana do Baixo Alentejo e Alentejo Litoral não terá mais que cinco deputados eleitos e 235 000 habitantes. Quantos concelhos de Portugal superam este número?
- Muitos!!!

Uma Região do Alentejo -com pouco mais de 535 000 habitantes (segundo o censo de 2001)- teria força, não pelo número de eleitores, não pelo número de deputados eleitos, mas por ocupar um terço do continente nacional. Seria uma região natural. Teria uma cultura e uma individualidade próprias sem ser necessário recorrer a grandes efabulações pretensamente históricas.
Fruto das ambições políticas de determinadas cliques, das diatribes já levadas a cabo - nos jornais, na Associação de Munícipios do Distrito de Beja e no Funchal(!!!) - e das obsessões citadas e dificilmente explicáveis de alguns políticos, perdeu-se tempo. Perdeu-se demasiado tempo...
Em circunstancias normais estar-se-ia a discutir a divisão dos 3 órgãos de poder (porque não?) e de secretarias pelas cidades alentejanas (não necessariamente Beja, Évora e Portalegre...), o papel das suas universidades, os modelos de desenvolvimento...
... mas como dizem: 'Mais vale tarde do que nunca'. Esperemos que não se tome juízo no dia -como também há quem diga- de 'São Nunca à Tarde'...

O Jerónimo é a pior moeda para o Alentejo

Não exactamente por mérito ou demérito seu; mas porque colocou dois autarcas do Baixo Alentejo 'fora de combate'. Um antes do Congresso -o autarca de Beja-, e outro, -o de Alvito- durante o Congresso...
Nas próximas autárquicas ao PS basta-lhe lutar por segurar os votos que tem para ampliar a sua presença autárquica na Região. É que o 'PCP do Jerónimo' vai perder votos e o 'PSD de Santana' também. Os disparates pagam-se sempre caro...

Está-se mesmo a ver que o discurso tautológico da 'comurb do Pita' e dos seus seguidores seguirá o seu caminho. Não podendo ser travado nas urnas só o próprio PS, se entretanto for governo, o poderá travar...
Estranho?!
Pois é... é que estas taifas terão custos que um país pobre pode não poder pagar.

Entretanto, para as lógicas partidárias dominantes, apenas a do PCP é compatível com um Alentejo forte...


novembro 28, 2004

Má moeda...

Haverá repercurssões da teoria da má moeda e da boa moeda do Cavaco Silva aí na planície?

Que moeda é a que circula?

novembro 25, 2004

Bombordo ou Estibordo?

«Estou convencido, e isso também já aqui foi dito pela Profª. Elisa Ferreira, que aquilo que inviabilizou a aprovação dos portugueses no referendo da regionalização foi, sobretudo, a não identificação destes com o modelo territorial proposto. Tivesse o referendo sido feito numa lógica das cinco regiões e, certamente, o resultado teria sido outro.
(...)
O processo de descentralização de competências, à cabeça, é um processo claramente demagógico, e não é um bom contributo (do meu ponto de vista) para valorizar a importância da autarquia e do poder local, no momento em que as autarquias estão certamente, e em muitos casos injustamente, a ser relativamente mal tratadas e têm uma imagem menos positiva.
»
Carlos Zorrinho, Julho 2003, Intervenção no Debate “Descentralizar. Regionalizar. Desconcentrar. Como Fazer?

«O G8 – grupo dos 8 autarcas socialistas que integram a Associação de Municípios do Distrito de Beja – garantiu ontem em conferência de imprensa que o PS não desiste da criação da ComUrb do Baixo Alentejo a Alentejo Litoral. (...) Luís Ameixa espera que depois das autárquicas de 2005 existam condições para que seja criada a Comunidade Urbana do Baixo Alentejo e Alentejo Litoral
Conferência de imprensa da Federação do Baixo Alentejo do Partido Socialista, Novembro 2004 (Rádio Pax)

Ora, Sr. Eng. José Sócrates, em que ficamos, para bombordo ou para estibordo? Convinha decidir, pois com este balanço a náusea está generalizada e corre-se o risco de virar o barco. Tome conta do leme, trace azimute certo para trilhar um rumo seguro!

novembro 23, 2004

Rumo a um Processo de Descentralização Concêntrico?

A Associação de Municípios do Distrito de Beja aprovou ontem, por unanimidade, a sua transformação em associação de fins específicos, pondo um ponto final à ilegalidade que, em acordo firmado num fim-de-samena no Funchal entre os representantes do Pattido Socialista e do Partido Social Democrata, a tinham unilateralmente conduzido. (ver Diário do Alentejo)
Estão agora, segundo creio, criadas as condições para se iniciar um dabate alargado sobre o que pretendemos, estrategicamente, fazer do nosso Alentejo.
Não conheço vias sem riscos, sem trabalho ou sem vontade, apenas sei que todos seremos poucos para traçar e caminhar por via muito estreita e sinuosa. Aos representantes políticos do Alentejo pede-se, mais do que nunca, que se focalizem nos seus representados, alheiando-se de "conluios" patéticos de obtençao do poder que poderão servir para um ou outro protaganismo efémero mas nunca para o desenvolvimento sustentado das nossas gentes.
O que está em causa? Apenas e só conseguirmos sentarmo-nos todos a pensar sobre nós, alentejanos! Quem se entretiver a esgrimir se no Alentejo deve haver uma ou duas ou 3 regiões consoante o interesse partidário poderá estar a atirar-nos para um caminho sem recuo e de destino mais do que incerto!
Não podemos esquecer o resultado do referendo sobre a regionalização no Alentejo - somos todos adeptos de sermos nós a traçar o nosso destino - tendo obrigação de não a cair na tentação de evoluir para o comodato da aplicação das Leis-Quadro ns. 10 e 11 de 13 de Maio de 2003, que nada descentralizam, apenas se propõem negociar, caso a caso, atribuições administrativas que aliviem o Orçamento de Estado.
Nós queremos autonomia, queremos ser uma região com competências a nível de decisão do nosso futuro e não bonecos animados nas mãos do poder central.
Neste sentido, peço a todos os representantes políticos regionais que contenham alguma ânsea de poder que possam eventualmente sentir, para se abrirem ao Alentejo e aos alentejanos.
A Federação do Baixo Alentejo do Partido Socialista tem agendada para hoje uma conferência de imprensa e, sendo provavelmente um vencedor esperado das próximas eleições autárquicas, recai sobre ele uma responsabilidade imensa - a de unir em vez de dividir o que não há!

A última fronteira da tolerância racial: os ciganos

No passado fim-de-semana tornou a acontecer uma rixa entre famílias ciganas, da qual resultou um morto e dois feridos. Foi em Trigaches, como já tinha sido em Figueira de Cavaleiros e noutros locais. Todos os anos, por esta altura, é vê-los, à beira das estradas, em pequenos acampamentos. São os últimos nómadas. São ciganos. Não são bem gente… são braços para a apanha da azeitona. Servem enquanto servem, porquanto partam quando deixarem de servir. Inspiram medo, incomodidades e pequenos ódios. Lembro-me de Pita Ameixa ter pensado num parque nómada em Ferreira – porque havia que dar condições àquelas gentes… – como se a solução não fosse ela própria tão discriminatória como aquilo que, politicamente, se queria combater.

Serão os ciganos a última fronteira da tolerância racial? Estarão eles, já, para lá da linha? Serão, paradoxalmente, servos da gleba sem gleba?

novembro 21, 2004

O caminho pedregoso dos Toninhos do interior

Que o interior continua na senda do implacável despovoamento, é óbvio. Nem sequer é necessário estar atento às estatísticas para o perceber. Vê-se a olho nu! Já nem sequer podemos apontar o dedo ao escorrimento das gentes para as cinturas industriais. Esse balão está raso de “sobreviventes” que vão sobrevivendo sei lá como ao paulatino fechar do taipal, hoje aqui, amanhã ali.
A evidência está sim numa maior procura de caixões do que de berços. É o óbvio desequilíbrio entre uma maior procura dos cemitérios que das maternidades. Este é um mal geral, não só nosso, que perdurará enquanto os filhos forem dispendiosos no dinheiro e no tempo – mal vão as sociedades que não acautelam uma regeneração equilibrada. No entanto, com o mal dos outros podemos nós bem – passe o cinismo. A solução para este mal é, no entanto, carente de um poderoso fármaco, curativo este só fabricável com ingredientes provenientes de uma nova forma de encarar a convivência humana e a sua relação com a harmonia da bola terrestre.
Depois ainda, sedimenta-se na faixa jovem, a olhos vistos, um possante estigma. Nada mais que uma quase cromossomática determinação que reveza o antigo b a bá da fala “mãe, pai, avó”: uma aberta, e eu bazo da parvalheira!
Depois há duas ordens de mezinhas paliativas. As tão do agrado dos políticos zarolhos do curto prazo, que contribuem imenso para a diminuição do desemprego mas ao desenvolvimento sustentado dizem zero. Os “dadores” de tais tisanas espalham-nas por todos os “interiores” onde quer que haja doentes a precisar do soro da sobrevivência. Só que tão depressa chegam, como tão depressa abalam com a garrafa do soro atrelada, sempre que o termómetro das mais-valias vacile um cagagésimo. Há ainda as mezinhas dos que – poucos, muito poucos - gostam do interior por ser o seu ou por que o adoptam desinteressadamente. Vale ainda dizer que esses, na grande maioria dos casos, são os que fazem das tripas coração e apostam a meia dúzia de patacos que têm ou que foram esmolar ali ao banco agiota. Para esses, para além do permanente ai Jesus do cacau que tenho para amortizar, começa a peregrinação pelas omnipresentes capelas da burocracia onde reinam toda uma casta de atrofiados especialistas em fecundar o debaixo, quando não com tesouraria paralela também aberta. Depois ainda há as normas gerais, para todo o território pátrio, que tudo mede pela mesma medida fiscal.
- Senhor director já investi o cacauzinho todo que tinha e agora dava-me jeito reembolsar o ivazinho para alargar um pouco o nó corredio – suplica o Toninho investidor quase de gatas, torcendo as mãos aflitivamente enquanto é atacado de suores frios ainda assim o director não lhe descubra um fiscalzinho rabo-de-palha.
- Senhor Toninho colector/contribuinte, regras são regras, para o rico e para o pobre, para o litoral e para o interior, etc… e tal… para além da cega justiça fiscal – aqui o director sorri malevolamente – não esqueça o nobre desígnio patriota de contribuir para a contenção do défice em 2004. Se não morrer entretanto, passe por cá em 2005 que a gente vê o que pode fazer?

o Altar

Regressei ontem de uma pequena interrupção à sequência normal da vulgaridade em que, voluntaria ou involuntariamente, nos arrastamos ou deixamos que nos arrastem. Por ora, ainda não consegui digerir bem o turbilhão de confrontos que me ocorre. Entre o que podiamos ser e o que somos.
Em concreto estive no País Basco e na capital económica do dito, San Sebastian. Porque os bascos são de facto gente complexa. Três parlamentos autonómicos com igual deputação no parlamento "central" e assumem-se como quase uma confederação. O governo autonómico não é bem um governo como o da Catalunha ou da Galiza. É uma incompreensível representação de interesses colegiais cujo entendimento me escapou em tão poucos dias... É matizado por um catolicismo profundo, mas que a mim me parece quase luterano. A riqueza oculta-se por pudor. O basco é tímido e delicado, muito educado. Contudo possui um enorme sentido de humor.
Disto tudo resulta uma região bem acima da média europeia e com problemas semelhantes aos que vejo discutir na Suécia...

Talvez um dia volte a este tema. Mas depois de umas viagens de trabalho começa a ser clara uma coisa. O altar a que se sacrificam não tem nada a ver com os altares que por aqui adoramos. O dinheiro, o poder, a fama, e outras merdas do costume...
Parece-me genuina a família basca. Parece-me sólida. Parece-me genuíno o interesse pela cultura. Vê-se muita gente a ler nos cafés e bares... Vê-se muita gente a citar o que disse este ou aquele escritor basco, espanhol, português, inglês, americano...O interesse pelo conhecimento e pelo conhecimento do outro...
e parece que ali o conceito de verdadeira solidariedade e de entreajuda vive...
o que é curioso é que com uma matriz tão católica, pelo menos na aparência, se cultiva uma ética individual de responsabilidade pessoal e intransmissível...

Vai-se a um lagar e fica-se 'com os azeites'...

É verdade.
Fui levar as poucas azeitonas que 'por desfastio', apanhei com a minha mulher no nosso quintal. -Tenho o hábito estranho de gostar das coisas da agricultura, considero-a uma actividade nobre e não percebo (ou não quero perceber) o desencanto que grassa entre os agricultores-. É possível que goste da agricultura por não ter que viver dela. Talvez por isso o meu avô não se ufanasse dos seus afazeres e cefaleias agrícolas...

Trocada a azeitona por azeite virgem a 0,7º (não tem, felizmente, rigorosamente nada a ver com o azeite refinado a 0,3º das grandes superfícies: não se atenham, falando de azeite, aos graus para aferir da sua qualidade...) fiquei à conversa com o patrão e meu amigo até tarde. (As nossas esposas são primas e, enquanto elas matavam as suas saudades em casa, eu atrapalhava-o no lagar).

Uma vida complicada a do campo. Ele e dois empregados trabalhando ao Sábado até à uma da madrugada. Hoje -Domingo!- voltarão a fazer dois turnos! Isto durante mais duas ou três semanas...
A azeitona, se o lagareiro é sério e trabalhador, não pode ficar parada à espera de entrada na prensa. Para que não ganhe acidez é aconselhável que saia da árvore para o lagar e seja rapidamente transformada em azeite.

Enquanto conversávamos, mostrou-me as instalações modernas do seu lagar. Centenas de milhar de contos investidos para um futuro incerto. Para um futuro atacado.

Falo com este homem sem pruridos. Sem cuidados. Sem receio de ferir susceptibilidades. O seu dinamismo, a sua inquietude e inteligência empresarial deixa-o com poucos 'telhados de vidro' e muitas dores de cabeça. Mas, por outro lado, coloca-o numa posição eticamente inatacável. Portanto provoquei-o apenas para o poder ouvir. Disse-lhe que a apanha da azeitona estava entregue aos ciganos, que eram os espanhóis quem plantava mais oliveiras... aquelas coisas...
Respondeu-me que investiu no lagar não porque seja moda. Investiu porque os outros fecharam. Tem o único lagar num raio de dezenas de quilómetros e, como já se disse, tem muito trabalho. Tem um lagar moderno e vai investir no engarrafamento dos seus produtos. Quer aumentar a sua área de olival. Quer lutar contra o desespero e quer vencer. Não sabe o que é um fim-de-semana há meses. Recorda arreliado que nem pode dar uma volta de moto 'para matar saudades'.

Perguntei-lhe quem é que lhe atacava o futuro.
-A política que temos!
Queixou-se da morosidade de processos. Da autorização parada há um ano em Évora para o aumento do seu olival. Dos problemas com a rotulagem para o engarrafamento do seu azeite.
Queixou-se da burocracia. Queixou-se da desigualdade de critérios que cria rigores e problemas aos portugueses e facilidades e laxismos para os estrangeiros. Queixou-se dos financiamentos complicadíssimos para os nacionais. Queixou-se das políticas agrícolas. Dos interesses franceses, espanhóis, italianos, belgas instalados na Europa.

Falámos da política cá do nosso Alentejo. Não há dúvida: são de pura lana caprina as preocupações em agenda da nossa classe política. Chamar-lhes umbiguistas é dizer quase nada...

Mas, já agora, fiquem estes sabendo que a resposta às dificuldades que se seguem lhes daria votos e a sua resolução seria do interesse regional e nacional:

O que é que justifica a morosidade no processo de criação de rótulos?
(Quantos rótulos de azeite existirão em Portugal?
)

Porque é que um pedido para a autorização de um plantio de oliveira demora, pelo menos, um ano a ter resposta?

Porque é que a inspecção aos olivais é feita de forma arrevesada?
Os inspectores do INGA fiscalizam primeiro quem produz acima das médias regionais. Está certo... mas quem não produz acima das médias regionais, não apanha a azeitona- dá-a para apanhar aos ciganos em troca dos verbetes do lagar (cada quilo entregue corresponde a +/- 15 cêntimos de subsídio)- não poda nem aduba as árvores? Como é que se cortam as asas a estes 'espertalhaços'? Quem é que fiscaliza a boa prática agrícola de todos os que recebendo subsídios descuram as suas responsabilidades?

novembro 18, 2004

Do Porco Preto à "Salve, salve Virgo Pia" (lauda italiana)

Tratar da promoção do nosso porco preto (vamos lá a ver se não estico mal o pernil de novo) é tratar da nossa imagem, interna e externa, promovendo o que temos, o fazemos e o que somos que nos distingue e identica.
Daí que a precaridade da nossa promoção seja constatada tanto no Porco Preto como na Música Litúrgica, por exemplo. Vem isto a propósito de dois recentes eventos, um em Évora e outro no chamado Baixo Alentejo, que me revolvem as entranhas - as "VII Jornadas Internacionais da Escola de Música da Sé de Évora" e o "Terras sem Sombra", produzido pela Diocesa de Beja e muito divulgado nos meios, em parceria com a "Arte das Musas".
Não me deterei sobre a qualidade da programação destes eventos que ocorreram concomitantemente no nosso Alentejo. Detenho-me e dou nota da total ausência de um, um que seja, músico alentejano ou cá residente!
Não sofro de racismo, de xenofobia nem de bairrismo, mas entendo (poderei entender mal, é certo) que se o primeiro dos eventos foi financiado pela Câmara Municipal de Évora e o segundo pelo pelo Ministério da Cultura através do seu Programa Operacinal de Cultura (POC), onde se pode ler, que é «O Contributo dos Fundos Estruturais para a Valorização Humana e o Desenvolvimento Regional», ou ainda, na pag. 5 do link anterior, «Para compreender como os projectos co-financiados na área da Cultura promovem o desenvolvimento endógeno avaliam-se zonas que permitam afirmar a existência de "Pólos de Cultura", isto é, concelhos onde a diversidade de projectos co-financiados consubstancie um pólo de dinamismo cultural com repercussões na imagem dos territórios menos desenvolvidos, na travagem do declínio rural, na qualificação das pessoas e na valorização do território (...)», existe a "obrigação" de promover os actores culturais locais ou então declará-los incompetentes, mas nunca votá-los a um desprezo incompreensível!
Valha-me Deus! Valorização humana e desenvolvimento regional? Desenvolvimento endógeno? Consubstanciar pólos de dinamismo cultural?
Textos deste teor são valiosíssimos para mestrados, doutoramentos, pós-graduações e quejandos, mas pôr em prática, ah, pois, aplicá-los nas, pelas e com as regiões é o diabo! Por que será que nos pacotes que nos enviam para o efeito vêm sempre os mesmos produtores, agentes, artistas e os mesmos..., sempre?
Não temos (perdoem-me por não pretender ser exaustivo), a Orquestra do Baixo Alentejo? Não temos o Coro do Carmo? Não temos o Coro de Câmara de Beja? Não temos o Coro Gregoriano de Évora? Não temos o Coral de Évora? Não temos o Coro da Universidade de Évora? Não temos o Coro de Câmara do Conservatório Regional do Baixo Alentejo? Não temos o Pax Ensemble? Não temos o Quinteto Moderno? Não temos o Trio Lusitano? Não temos o Duo Concordis? Não temos o Trio de Guitarras? Não temos o Quarteto Intermezzo? Não temos os Metais do Alentejo? Não temos o Trio Divertimenti? Não temos um organista distinto que a pedido da Diocese de Beja toca regularmente no órgão da Sé para sua preservação? Não temos uma cravista competente? Não temos ume extensa série de artistas capazes de assegurar com qualidade assinalável estes eventos?
Ora bolas, assim o Ministério da Cultura poderá sempre dizer que co-financiou projectos para o Alentejo, mas nunca poderá dizer que promoveu a valorização desta região, que promoveu o desenvolvimento endógeno e muito menos que consubstanciou pólos de dinamismo cultural entre nós!
O que estes eventos têm em comum são o envolvimento de entidades religiosas, a Diocese de Beja (através do Dr. José António Falcão) e a Sé de Évora, e o Prof. Vieira Nery que, apesar de não ser residente, é professor na Universidade de Évora e, é claro, dinheiros públicos, arrecadados dos impostos de todos ou caídos de subsídios comunitários que, aparentemente, seriam para aplicar no Alentejo!
Ora, ou Deus andará esquecido deste Alentejo, o que se não me afigura, ou os seus proclamados terrenos representantes preferirão fazer "boa figura" lá para os lados da capital do "império".
A verdade é que, mais uma vez temos, fomos financiados sem tirar o menos proveito!
O Ministério da Cultura fará boa figura ao apresentar uns milhares de euros de financiamento para o Alentejo! A Igreja poderá dizer por este país afora que muito faz pelo desenvolvimento cultural destes pobres coitados! A Arte das Musas divulgar-se-á pelas programções que leva a cabo, inspiradoras ao que parece da lusa beatude! O Dr. José António Falcão e o Prof. Vieira Nery, esses não, não precisam já destas coisas, são autênticos "opinion makers" do Ministério da Cultura!
Quanto a nós, nada de novo, só os vemos passar! Poisar é que não, muito menos os financiamentos para o nosso desenvolvimento, cultural, no caso!
"Salve, salve Virgo Pia"!

novembro 16, 2004

O Desenvolvimento Local e a Gestão de Recursos Humanos...

As Associações de Desenvolvimento Local (ADL) e outras organizações do III sector (privado não lucrativo) fazem, no Alentejo e um pouco por todo o país, um meritório, algumas vezes excepcional, trabalho de Desenvolvimento nas suas áreas geográficas de actuação. Fiquemos entendidos quanto a este ponto; a afirmação está feita e é minha.

Estas organizações vivem sobretudo de financiamentos da União Europeia, seja por via dos Programas Operacionais Sectoriais e Regionais (vulgo PO’s), seja por via dos Programas de Iniciativa Comunitária (vulgo PIC’s). De uma forma ou de outra são financiadas por dinheiros públicos. São-no, de resto justamente, até porque o Estado não tem, nem por via da administração central, nem por via da administração local, condições de fazer o trabalho que elas fazem.

Presentemente, tais organizações, no Alentejo, possuem um corpo técnico de excelente qualidade; têm equipas jovens e altamente qualificadas. Tão jovens e tão qualificadas que são capazes de fazer corar de vergonha qualquer organismo estatal. Tão jovens e tão qualificadas que se disponibilizam a trabalhar fora de horas, numa entrega total, garantindo para estas organizações excelentes candidaturas a financiamentos, usualmente aprovadas, e notáveis planos de acção.

Apresentam, aparentemente, uma configuração de vanguarda: num contacto privilegiado com as populações criam e disseminam conhecimento. Têm, aparentemente, uma estrutura flexível onde a informação corre facilmente e a autonomia é prática dominante. Premeiam, aparentemente, a iniciativa e a competência. Valorizam, aparentemente, os Recursos Humanos de que dispõem.

Há, porém, um dado desconcertante: o turn-over (entenda-se a saída e entrada de técnicos) é extremamente elevada. Mais: a saída dá-se, não raras vezes, para a Administração Pública.

O que é leva jovens qualificados, altamente motivados, a sair de organizações tão vanguardistas? O que é que leva outros, ainda nessas organizações, a considerar a possibilidade de seguirem esse mesmo caminho? O que é que justifica a troca de organizações onde tratam o chefe por tu por estruturas imensamente hierarquizadas – onde não poucas vezes nem sabem quem é o chefe?

Será caso para dizer que as aparências iludem!!!

Será que a informação não flui assim tão bem? Será que a estrutura não é assim tão flexível? Será que a autonomia é uma falácia? Será que não é a iniciativa e a competência o que realmente se premeia? Será que os Recursos Humanos não se sentem assim tão valorizados.

Será que os jovens altamente qualificados e motivados estão, em alguns casos, anos e anos, a recibo verde – numa situação de emprego profundamente precária? Será que recebem, em alguns casos, consideravelmente abaixo do que se recebe na administração pública? Será que subsistem, ainda, casos de sobrefacturação nos recibos, justificando verbas recebidas pela organização, não pagas ao trabalhador, e penalizando fiscalmente, quer em termos de escalão, quer em termos de bonificações de crédito, esses mesmos trabalhadores? Será que, ainda que com recibos verdes, pedem a estes trabalhadores que cumpram horário, que respeitem hierarquia e que tenham local de trabalho fixo? Será que, perante o cumprimento destas exigências, em alguns casos, continuam sem pagar subsídio de Férias e de Natal? Será que o reconhecimento do mérito é parco? Será que, quando algum trabalhador, que noutras ocasiões trabalhou horas e horas sem controlo, falta uma tarde ao serviço prontamente lhe descontam as horas em falta?

Numa altura em que se debatem as vias alternativas de financiamento do III sector, numa altura em que de alguns quadrantes se reclamam verbas inscritas no Orçamento Geral do Estado para financiarem estas organizações, numa altura em que tanto se fala de dignificação dos postos de trabalho, valia a pena reflectir sobre esta realidade, sob pena de se manter a sangria de quadros qualificados nas regiões mais carentes de qualificação técnica.

Estamos a falar de técnicos que trabalham, paradoxalmente, na promoção de melhores condições de vida, na promoção da empregabilidade das populações, na organização de formação profissional.

Dir-me-ão que há excepções. Outros empurrarão para cima e/ou para baixo as responsabilidades.

A culpa morrerá, mais uma vez, solteira!

E o Alentejo continuará a perder!

novembro 15, 2004

Contributo para a discussão das hortas sociais

«Em primeiro lugar, a sociedade civil portuguesa é rica em tecnologias familiares, tanto materiais como simbólicas, e em formas de sociabilidade face-a-face baseadas sobretudo no parentesco e na vizinhança. (...) [A] sociedade civil portuguesa é fraca, isto é, atomizada e fragmentada, se a julgarmos apenas pelos padrões e formas de organização dominantes nos países centrais. Pode, ao invés, conceber-se que as sociedades civis dos países centrais são fracas, quando julgadas segundo os padrões e as formas de organização em que a sociedade portuguesa é forte. É fácil construir o contra-argumento de que se trata de arcaísmos pré-modernos, tradicionais e retrógrados, não admirando por isso que tenham figurado entre os créditos da contabilidade salazarista. Admitindo que nem sempre é fácil distinguir uma posição retrógrada de uma posição progressista (ao contrário do que pensam os dogmáticos das várias cores), há procedimentos analíticos e critérios políticos que podem ajudar à distinção. Tomemos, por exemplo, o caso da pequena agricultura familiar ainda importante entre nós e dita ineficiente, retrógrada e condenada ao lixo da história pelos adeptos da modernização, agora entrincheirados no poder. Sem dúvida que é retrógrada, pelo menos, em dois pontos: em primeiro lugar, representa dominantemente uma estratégia de sobrevivência, que raramente chega para atingir um nível de vida decente; em segundo lugar, é uma organização social particularmente dominada pelo poder do patriarcado e, portanto, pela desigualdade sexual e pela exploração do trabalho infantil.
Seria, no entanto, concebível que a pequena agricultura familiar fosse reinventada, a partir da que existe, e de modo não só a neutralizar a sua negatividade - transformando-a numa estratégia de afluência e de qualidade de vida e democratizando as suas práticas produtivas e reprodutivas - mas também a maximizar a sua potencial positividade: uma vida activa e diversificada, conduzindo em parte ao ar livre e em comunhão com a natureza, uma ideologia de produção baseada no socialmente útil e não no lucro e garantida contra os excessos de produção e de produtividade. Para que se não pense que se trata de imaginação solipsista, vem a propósito mencionar a recente curiosidade dos deputados do Partido dos Verdes no Parlamento Europeu pela pequena agricultura portuguesa, vendo nela alguns traços do modelo de agricultura por eles defendido no seu projecto de reforma agrária europeia. Segundo eles, as vantagens reconhecidas na pequena agricultura portuguesa são precisamente as seguintes: permitir uma melhor qualidade de vida pelo equilíbrio que proporciona entre trabalho urbano e trabalho rural, ajudar a fixar a população nos campos e impedir a congestão das cidades, não destruindo o meio ambiente e produzir equilibradamente evitando o problema dos excedentes.»
(SANTOS, Boaventura de Sousa (1994), Pela mão de Alice - O social e o político na pós-modernidade, Porto: Afrontamento)

novembro 14, 2004

Uma proposta para o Alentejo: as hortas sociais 2

É evidente que, de acordo com melhor opinião e por contingências locais, esta proposta pode ser adaptada a realidades distintas. Não se assume de forma nenhuma nem como uma reforma agrária mitigada nem como a restauração dos ineptos baldios. Existem pessoas, e isto é uma realidade indesmentível, que têm a ‘necessidade de mexer’, de se sentirem produtivas. Neste sentido, esta ideia constitui-se como uma prioridade social. Ambiciona muito mais do que uma mera ‘terapia ocupacional’. Procurará preencher a necessidade básica e humana de prover a satisfação de quem se sente atraído pelas coisas da agricultura.
Não é raro ser pedido, a quem tem quintais, em vilas e aldeias, ao abandono, ou menos cuidadosamente tratados, no Alentejo, que facilite o seu cultivo. Esta solicitação tem, é certo, muitas vezes o intuito de colmatar algumas necessidades em termos alimentares. E, fruto até de alguma reserva e de alguma vergonha, tenho observado menos esta oferta.
De qualquer forma, é um facto que há muita gente nas aldeias e vilas alentejanas que não tem um quintal com dimensões razoáveis. Esta é uma situação algo escandalosa mas muito usual. Muitas moradias no Alentejo dispõem apenas de um logradouro pequeno e com pouco, ou nulo, aproveitamento hortícola.
Esta proposta teria ainda como destinatários todos aqueles que, nas grandes cidades, têm saudades da sua meninice no mundo rural, não necessariamente no Alentejo, e não têm condições físicas nem/ou económicas para comprar um monte alentejano. Seria uma forma de atrair às aldeias e vilas do Alentejo muita gente.
A necessidade ecológica de tratar com métodos simples muito do lixo urbano produzido seria uma prioridade. Apesar do que ficou dito na posta anterior a propósito das quintas sociais, não se pode reduzir a experiência da América Latina a um ‘bodo aos pobres’. No Uruguai, por exemplo, houve preocupações muito interessantes, em termos ecológicos, para esta realidade. Neste país estas quintas eram obrigadas a aceitar lixo urbano (tratado para o efeito) como fertilizante.

Levar esta proposta adiante poderia proporcionar ainda a revitalização e a valorização das aldeias e vilas alentejanas distantes dos núcleos ou das áreas que hoje têm um aproveitamento mais turístico. Arrisco dizer que lhes traria pessoas com outras vivências e aumentaria a ‘massa crítica’ destas comunidades.
Não ignoro que tem sido meritória a acção de apoio ao domicílio aos idosos em muitas das aldeias alentejanas. O que se pretende agora é evitar que alguns destes idosos se sintam , e passe o palavrão,‘marmitodependentes’ da Santa Casa. Acresce que, com o aumento da esperança de vida das pessoas, é cada vez maior o número de reformados que se encontram em boas condições físicas e desagradavelmente inactivos.
A possibilidade de escolas, asilos e instituições sociais do mais variado tipo aderirem a este projecto é absolutamente possível e desejável.
A concretização desta ideia pressupõe a necessidade de as autarquias aderirem a este projecto infraestruturando-o convenientemente. Outras entidades o poderão, no entanto, levar por diante… Devemos alertar para o facto de ser comum o apoio financeiro e continuado a eventos como: ‘Tarde de pesca promovida pelo Clube de Caça e Pesca da Candeia negra com concurso e piquenique apoiado pela autarquia X’... Em contrapartida esta actividade seria um investimento –mesmo que considerado de um ponto de vista empresarial- no desenvolvimento das localidades onde fosse concretizado.
Cabe ainda dizer que a Escola Agrícola de Beja tem poucos alunos. Uma iniciativa como esta poderia apontar para um caminho interessante e de futuro como a ‘agroecologia’, e, porque não? Para uma nova vertente de especialização para os animadores culturais que se arrastam desempregados.
É claro que seria imprescindível a existência de um estudo prévio, em cada localidade que determinasse quem aderia e, mais importante, quem poderia vir a aderir a esta iniciativa.
Considerados os pressupostos –que não condições- atrás definidos, caberia a autarquia assegurar a aquisição de um terreno agrícola a não mais de 1000 metros das povoações que aderissem a esta proposta. Seria providenciado a cada indivíduo aderente uma área de 500m2 (dependendo também da qualidade do solo), com fácil acesso e com serventia de água. As instituições já mencionadas poderiam aceder a áreas maiores…
Cada um destes ‘agricultores’ teria que cumprir com as seguintes exigências:
- Respeitar as regras socialmente estabelecidas de boa vizinhança;
- Comprometer-se a não utilizar produtos químicos na sua horta;
- Concordar com o facto de ser a Câmara a proprietária da sua horta;
- Aceitar as indicações dos agrónomos para a ‘exploração’ do seu hortejo;
- Não vender, sob nenhum pretexto, os produtos da sua exploração;
- Aceitar comparticipar no pagamento de custos de água e de energia dispendidos.
Seria ainda facilitado aos usufruidores deste projecto a construção de uma estrutura provisória onde poderia guardar as suas ferramentas e a possibilidade de fazer com familiares e amigos piqueniques podendo, nesse sentido, construir um pequeno telheiro, de acordo com as instruções dos responsáveis camarários.

novembro 11, 2004

Uma proposta para o Alentejo: as hortas sociais 1

O nosso Alentejo está vedado. Está vedado desde há muito tempo. Começou - no Campo de Ourique - por se deixar vedar em 1699. A sua vedação consolidou-se com o Liberalismo e com a lei de 1888. A ‘machadada mestra’foi-lhe dada nos anos 30, 40 e 50 do século passado, com as “campanhas -‘loucas’- do trigo” e com a transformação de muitos baldios em áreas de floresta.
Os baldios, fruto desta situação, começaram a ser um palavrão. Uma figura detestável. Na minha memória de menino baldios e arrabaldes, baldios e lixo, baldios e estrumeiras, e cabanas mal enjorcadas, e galinhas e patos e … enfim! começaram a ser sinónimos.
E porquê? Porque os terrenos encarados como baldios das povoações não o eram. Designavam-se assim, mas todos tinham um proprietário. Um dono. Um senhor. A sua organização era a ausência de organização, a arte do provisório, do breve. Eram um ‘desenrascanso’ de circunstancia.
Fruto de muitas e variadas causas, a vida comunal no Alentejo nunca teve a expressão verificada no Norte do País. Todas estas transformações políticas, sociais, económicas e jurídicas, citadas acima, tiveram um impacto muito mais violento, mais absoluto, a Sul.
Apesar das leis de 76 e dos anos 90 terem tentado rumar contra esta situação o seu efeito foi diminuto. Imperceptível.
Numa sociedade moderna (ou infraestruturalmente moderna) a gestão e o usufruto dos baldios pelos moradores de uma determinada comunidade deixou de fazer sentido. Criou abusos como aquele que há um ano foi alvo de um Acórdão do Tribunal da Relação do Porto. A traços largos: fruto da desestruturação dos baldios numa determinada localidade do Norte do País, um particular ousou construir uma moradia nos terrenos baldios da sua localidade. Foi alegado por este indivíduo o ‘uso capião’ dos referidos terrenos. Perdeu a causa. O ‘uso capião’ não tem força de lei nesta área. Foi essa a razão pela qual os sargaceiros da Apúlia puderam retomar o direito a secar as suas algas num praia baldia que um determinado aristocrata vedou e cedia apenas contra o pagamento de uma renda.
Adiante…
É comum, e, infelizmente, nada escandaloso, que muitas das aldeias, por esse ‘Alentejo a fora’, sejam constituídas por casas modestas sem quintal.
Para os alentejanos, esta míngua de terra no meio da abundância, era uma situação a um tempo revoltante, inibidora e irreversível. Era a sua realidade. Era uma realidade triste.
A ânsia de terra fez, no ‘pós 25/A’ uma Reforma Agrária com excessos. Com defeitos. Em certa medida esta situação foi provocada pelo aparelho de determinados partidos da nossa esquerda partidária de então e potenciada pelo deslumbramento face a uma possibilidade impensada pela generalidade dos rurais alentejanos, anos antes. Tratou-se, passe a imagem, de uma enorme ‘bebedeira de terra’ que não foi nem orientada nem racionalizada.
Anos depois a situação, como seria de esperar, voltou à ‘estaca zero’.
Zero absoluto. O PCP, sintomaticamente, deixou de fazer da Reforma Agrária a sua bandeira. Esta seria uma situação impensável há alguns anos atrás. Trata-se de uma reivindicação que já não tem aderentes, nem ouvintes. E as reivindicações assim, vazias de votos, são esquecidas rapidamente pelos partidos.
Os filhos dos homens que trabalharam nas ‘UCP’s’ estão em Lisboa, estão no Algarve… São pedreiros, trabalhadores da indústria hoteleira, estudaram… Foram à sua vida. Ponto. Uma página encerrada. Outra página por virar.
Os homens da ‘Reforma Agrária’, os que pegavam na enxada, no arado e no tractor reformaram-se. Estão velhos. Foram substituídos por outros deserdados: Os que vieram de Leste.
Os filhos dos velhos senhores estão de volta. Uns, com novas mentalidades, empreendem, outros, os que nada aprenderam com os tempos de mudança que entretanto advieram, arrastam-se, subsidiam-se e, tarde ou cedo, vendem. E vendem com desamor. Vendem para empresas que coutam, empresas que querem promover a caça, que querem vender turisticamente o espaço aberto, fornecer aos empresários urbanos o silêncio e o lazer… É certo que há excepções, agradáveis excepções…
Não estou a atacar o turismo cultural nem o turismo em espaço rural. Não! Estou preocupado; seriamente preocupado, com o ‘desarranjo social’ que grassa por esta Planície.
Também não quero que o tempo volte para trás, nem 5 dias nem 50 anos. Não! O que pretendo propor aqui na Torre é a gestão dos espaços rurais nos nossos dias.
As nossas aldeias estão povoadas –que é como quem diz… - de velhos reformados, uns da vida agrícola, outros regressados para a terra da sua meninice após anos de Lisboa, de França, de Alemanha; de jovens mais ou menos desocupados; de novos trabalhadores de Leste e de algumas crianças (cada vez menos) que aguardam por uma oportunidade para sair do marasmo em que vivem.
A população urbana que demanda o Alentejo é amigável e, cremos crer, imbuída das melhores ideias e sentimentos face aos locais. Mas constituem-se simultaneamente como uma visão daquilo que a cidade pode proporcionar para os mais novos: dinheiro e regalias sociais.
As Escolas agrárias, fruto do desamor pelas coisas do campo estão a perder alunos. O aparente paradoxo de existirem oportunidades no Alqueva e, ao mesmo tempo se verificar a fuga dos jovens do Alentejo -e da agricultura- radica desta realidade: ganha-se a vida melhor fora destas ‘vedações’. E isso, infelizmente, é verdade na maior parte dos casos…

Haverá alguma coisa a fazer?
Penso que sim. Penso que é preciso valorizar, de uma forma inclusiva, todas as aldeias deste Alentejo.
O leitor neste momento ri-se:
-Outro sonhador!... – e encolhe os ombros apertando a cabeça que abana negativamente.
Sonho. Mas, como diz o outro, ‘o sonho comanda a vida’. E sonho que é possível voltar a ver putos ‘ao ninho’, ‘aos pardais’, ‘ao grilo’, ‘à bola’…

Quero apresentar uma proposta, que se assume apenas como tal, entre as propostas que os leitores da Torre, mais abalizados que eu, poderão elaborar.
Propostas que podem corrigir esta, ‘correr-lhe paralelas’ ou anulá-la. Não me interessa. É um caminho. É preciso caminhar.
Proponho a instalação de infra-estruturas adequadas para a criação de pequenos hortejos nos arredores das aldeias e vilas do Alentejo. Estes hortejos poderiam dirigir-se aos reformados que pretenderiam umas couves, aos urbanos que pretendem e sonham com uma vivência da vida campestre, aos moradores que, trabalhando na povoação mais próxima na Função pública, na mina, na oficina, no Hipermercado, pretendam um hobbie… A última coisa a criar seria um gueto assistencialista!
Numa próxima posta desenvolverei esta ideia. Para já, e para os mais cépticos, direi que nada disto é novidade fora do nosso país. Na Europa, os nossos vizinhos espanhóis, por exemplo, já levaram por diante esta iniciativa nalgumas localidades extremenhas. Na América do Sul foram constituídas hortas sociais no Uruguai e na Argentina como forma de propiciar um valioso suplemento alimentar em países vitimados pela crise de 2002.

Não Obstante, há que Arrepiar Caminho

O mutismo, o autismo, a mediocridade salóia têm sido por aqui denunciados pelos meus estimados confrades desta Torre sem eco para lá do agradável crescente número de leitores assíduos que vamos registando com profunda gratidão.
Hoje, contudo, tentarei sensibilizar para um dos muitos problemas que ainda poderemos estar a tempo de corrigir, assim o queiram os detentores dos dispersos poderezitos distribuídos à competência tribal.
Porco Preto!
Eis do que vos pretendo falar. Quem não conhece este animal nado e criado para as bandas de Barrancos e que nos chega sempre com enebriante paladar, seja em presa ibérica, secretos, os mais vulgares lombinhos e, pois está claro, o pernil de fumeiro - o presunto! Iguaria sem igual, única e nossa, nossa do Alentejo, um orgulho da gastronomia alentejana que não hesitamos em dar a provar a todo o forasteiro que ainda não o tenha degostado!
Afinal, que problema tem o nosso Porco Preto? Nenhum, por quem sóis, no nosso prato é de chorar por mais. Fora do prato, ainda dependurado no talhante é que ele é já um petisco em vias de extinção se não arrepiarmos caminho!
Comer Porco Preto a todas as refeições..., poderia ser uma tentativa, mas insuficiente e um sério atentado à saúde pública. Que fazer? Bom, sempre poderíamos explorar o nicho de talhante do dito, tentar uma vender os porcos em rede e, quiçá, montar umas banquinas nas estradas como se de melões se tratasse! Por que não, até se daria uma substancial ajuda à redução da taxa de desemprego!
Mesmo assim seria insuficiente para salvarmos o nosso Porco Preto da extinção, para não falar do anedotário que por aí viria...
Quando congeminava sobre o que fazer pelo Porco Preto lembrei-me do Prof. Daniel Bessa, não por qualquer paródia, mas por um estudo que o Governo de Durão Barroso lhe encomendou e cujas conclusões deveriam ter sido mais escalpelizadas pelos responsáveis nacionais e regionais, apresentadas com pompa e circunstância pelo próprio Primeiro-Ministro de então sob o o título "Apresentação das Conclusões do Programa para a Recuperação das Áreas e Sectores Deprimidos - " e que poderão consultar aqui em formato "pdf".
Este foi o primeiro e único estudo feito em Portugal até ao momento (ressalvo, de que tenha conhecimento) sobre o estado da nação por regiões (aconselho os mais susceptíveis, como sejam os senhores das Com e Gam Urs, a passar à frente a página 4, aliás, o mesmo que o governo que o encomendou e as conclusões parabenizou fez, estejam à vontade) e, independentemente de não estar em total acordo com as conclusões que retira sobre o Alentejo, ao qual tive ocasião de exprimir pessoalmente (sendo como é um reputado especialista em macro-economia foi induzido em erro pela constatação de elevados investimentos endereçados pelo estado, mas que bem analisados se resumiam a Alqueva e ao Aeroporto de Beja), muito se pode delá retirar em nosso proveito, nomeadamente a notoriedade da marca Alentejo e o incentivo a incrementá-la!.
Estou para aqui farto de escrever e a coisa ainda está muito enredada! Afinal o Porco Preto goza de notoriedade entre nós e não se vislumbra o que é que o Prof. Daniel Bessa possa ensinar sobre o referido bicho!
Conhecem Allan Karl? Eu também não, mas sei que tem um blogue que se chama "The Digital Tavern", no qual, no pretérito dia 31 de Outubro, escreveu sobre o nosso Porco Preto! Ou não, esperam lá, ora vejam, não, não é que o malandro, que até diz bem de Portugal, em vez de falar do nosso Porco Preto fala dum tal "Andaluscian Jamon"! E o homem não se fica por aqui:
«I made my way through the winding roads of the Sierra Morena our eyes feasted on the famous oak forests that drop the only food these free range pigs are allowed to eat -- acorns. Like Serrano ham or prosciutto from Italy, Iberico Jamon Bellota is perhaps the ultimate gourmet cured meat.
In every restaurant, cafe and even the homes of the Andaluscian people you will find a leg of pork, hoof and all, resting on a specially designed holder, typically with an oak base, that places the leg at the ideal carving position

É por estas e por outras que nós, os tais portugueses do "V Império" de que nos fala o Piotr Kropotkine deveríam agir de imediato. Primeiro impedir estes imigrantes ilegais ou turistas de pé rapado a entrada neste paraíso e ainda por cima dizerem destas mentiras; depois, porque isto de blogues não é coisa credível, não dar muita importância ao assunto - o melhor é fazer de conta que o que esse "mentecapto" escreveu num blogue, afinal, ninguém lê - desprezo absoluto e irredimível!
Mas não é o mito do "V Império" que alimenta esta Torre e muito menos os nossos compadres andaluzes! Essa é que é essa, eles não andam a comer sono. O facto é que em termos das sub-marcas que constituem uma marca a do Porco Preto, nossa já não é a não ser para o nosso umbigo. Já não é por incompetência de todos nós, alentejanos e portugueses que ainda pensamos que basta manter e mimar as boas tradições e o resto logo se verá!
Pois verá, ver-se-á que enquanto não vendermos sustentada e coerentemente a nossa marca e respectivas sub-marcas alguém o fará por nós, conduzindo-nos ao único desenlace possível - o estado de subsídio dependência - destino inevitável quando se investe apenas na produção descurando a colocação no mercado. Em qualquer empresa, seja agrícola, manufactura, de bens ou serviços, de serviçoes de limpeza ou culturais, (e desculpem mas nem todos são obrigados a conhecer estes dados), a percentagem do orçamento total para a colocação dos produtos no consumidor final, onde se incluem estudos de mercado (comportamento dos consumidores, detecção de oportunidades, alvos e nichos, relação investimento/retorno), investimento na divulgação, distribuição e comercialização terá de ser superior ae 60% do orçamento total, sob pena de estar a produzir "monos" para stock!
Este texto é dirigido a todos nós, os que se preocupam com o nosso desenvolvimento, mas em particular a essa coisa das múltiplas regiões de turismo deste Alentejo, agora associadas numa só, que, francamente, ao fim de 7 anos ainda não consegui vislumbrar o que pretendem fazer, como, com que meios e atingir que alvos e nichos!
Por isso regresso ao título, há que arrepiar caminho, pois ainda temos condições para o fazer - temos o produto, temos qualidade superior, temos mão-de-obra especializada, falta apenas, como em tudo o demais, estudar o mercado, fazer a embalagem, escolher o canal de distribuição, os pontos de venda e divulgar! Falta pouco, não é difícil mas, se não for pedir demais, entreguem o assunto a especialistas credenciados!

novembro 10, 2004

TORRE DE (HO)MENAGEM

Ainda o Dinossauro Excelentíssimo não tinha caído da cadeira já eu matutava que esta planura levemente ondulada nuns sítios, noutros nem por isso, tinha a bênção dos deuses para ser confortável. Assim os humanos o quisessem. Mas, efectivamente, não queriam... alguns.
Pesava nesta ideia de moço novo o facto da rapaziada da pedra lascada por aqui ter assentado arraiais. A densidade megalítica assim o prova. De seguida, havia ainda mais uma tonelada de razões arrebanhada na gulodice de romanos e muçulmanos pela santa vidinha destas paragens. De prova provada, tanto uns, como outros, não eram nada tansos na busca de paraísos.
Depois, com o vinte e cinco do quatro de setenta e quatro do século vinte, convenci-me que dois mais dois são quatro e agora é que a sociedade da felicidade plena cai aqui que nem ginjas. Zero, um zero tamanho da Praça de toiros da urbe eborense. De novo alguns... agora muitos mais, continuaram a fazer gazeta aos éticos costumes.
Depois ainda, já após os anos da crendice da felicidade ali ao virar da empena do monte, ainda acreditei que a coisa não estaria propriamente atrás do monte, mas sim umas léguas depois do cabeço que se avistava para lá da ribeira. Novamente zero. Na mesma como a lesma.
Continuo a acreditar piamente que a coisa está para lá do cabeço. Só que passar a ribeira a vau, com a enxurrada de piranhas que a dita leva, é tarefa complicada. Das duas uma: ou solicitamos ao divino mestre o segredo de como caminhar sobre as águas; ou recorremos ao boi da piranha e o jogamos à água a jusante do vau elegido.
Só espero que ainda haja gente com vontade de chegar ao lado de lá do cabeço. Se não for eu, que seja o meu filho!!!
A (Ho)Menagem aos que lhe sobra tusa para tal. Este agora vosso moço velho continua com a sua santa ideia de estrebuchar até que o céu da boca lhe arrefeça!!!

O Mistério de La Sabina

Ora a propósito desta curiosa e nebulosa companhia mineiró/turistica deu à costa uma notícia ...

Sobre este nebuloso e curioso assunto voltarei aqui. Por agora deixo umas perguntas. Se alguém souber, eu fico penhorado pelas respostas.

O que é a La Sabina? Uma sociedade anónima? Durante quanto tempo esta lider de consórcios teve registada na conservatória do registo comercial com capital inferior ao mínimo legal exigido para sociedades por quotas, let alone ser anónima? Já agora quem vai pagar a despoluição daquele sítio? (Sítio porque durante décadas a Mina de S. Domingos era uma coisa estranha, não era aldeia, não era lugar,embora tivesse iluminação eléctrica primeiro que as urbes, era um sítio com milhares de almas....a Câmara Municipal não riscava nada a partir de certos marcos que delimitavam a propriedade privada...)

Procuramos na Internet uma páginhazinha sobre esta companhia anónima tão empreendedora e "dinâmica" e nada... estranha política de comunicação no mundo moderno...

Confesso enorme curiosidade sobre este "consórcio".... e sobre tal dimensão de investimento.... e sobre os financiamentos


Estes projectos não são novos já se fala deles há uma década no mínimo... ilustram antes uma história paradigmática de capitulação do Estado Português perante uma estranha companhia...

Um dia, com tempo, procurarei também apurar o papel dos protagonistas de Mértola na estranha promoção imobiliária da venda de casas aos ex mineiros...

novembro 09, 2004

Das decisões que afectam… [Memórias do Epicurtas II]

Escola Bento de Jesus Caraça decide fechar pólo por falta de viabilidade económica - Ensino profissional encerra no concelho de Castro Verde.

Esta é uma notícia triste. Triplamente triste. É uma notícia triste porque anuncia o termo de uma iniciativa de mérito que procurava levar a uma região com conhecidos estrangulamentos e falta de empreendedorismo um projecto audaz, com pernas para andar e radicalmente diferente das usuais soluções infinitamente testadas e infinitamente fracassadas de que, ao longo de anos, o Baixo Alentejo tem sido palco. É uma notícia triste porque anuncia um processo disciplinar a um homem de vistas largas, elevada competência pedagógica, obra feita e coragem e força para fazer mais e fazer diferente. Carlos Pedro, à frente da delegação da Bento de Jesus Caraça, em Mértola, prestou um excelente serviço a instituição, ao município, à região e, sobretudo, aos jovens que por lá passaram; por isto, estes falarão por ele… É uma notícia triste porque mais uma vez se prova que vivemos num país miserável em que os verdadeiros valores são reiteradamente menosprezados em prol de toda uma claque subserviente, alinhada e cabisbaixa. Uma vez mais, e isto sou eu a adivinhar, guerrinhas partidárias internas no PCP resolvem penalizar Castro Verde, o Alentejo e Carlos Pedro.
[este post foi publicado em 04.08.2003, na sequência de uma notícia publicada pelo Diário do Alentejo]

Este é um exemplo do que o Piotr Kropotkine, no post Perplexidades, queria dizer com: “Raramente neste país as pessoas são nomeadas para cargos públicos ou para-públicos por via da apreciação e mérito curricular como defendia Weber.”

Alentejo [Memórias do Epicurtas I]

Não sou alentejano, de berço. Mas amo o Alentejo. E não o faço com o distanciamento urbano, que acha pitoresco o Domingo ao sul. Amo o Alentejo pelo que é. Verdadeiramente. Pelas suas cores, pelos seus sabores, pelos seus cheiros, pelas suas gentes, pela sua dolência e irreverência. E sei do que falo. E falo do Alentejo mais distante. Do Baixo-Alentejo. Do Alentejo Interior. Do Alentejo quente, no Verão, como a braseira no Inverno. Do Alentejo frio, no Inverno, como o gaspacho no Verão. Falo do Alentejo desprezado pelo poder político. Abandonado pela comunicação social. Usado pela urbanidade chique. Do Alentejo de Barrancos – uma vez mais olvidado, como durante séculos, agora que a tensão já não se sobrepõe à tradição. E isto faz sentir-me alentejano também...
[publicado, originalmente, em 03.09.2003]

novembro 07, 2004

E no entanto a Terra move-se...

O Mundo não pára mesmo quando o nosso umbigo está tenso e palpitante. Mesmo quando nos aperta a alma e nos consome ideias e pensamentos. O Mundo gira apesar de nós.

O Senhor João Transmontano, presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Alentejo, acabou por se aborrecer com alguns dos umbigos grandes e exigentes que se passeiam pela nossa Planície.
O Diário do Alentejo cita-o assim na sua última edição:
"É preciso definir, o mais rápido possível, qual o modelo de organização no Alentejo, atendendo à nova geração de fundos Comunitários para o período 2007/2013".

Não nos pareceu que tivesse sido dada a mínima importância a este facto. A vida política cá do Distrito esganiça-se por outras questões. Questões de ordem política e pessoal e questões económicas que possam ter que ver com a inépcia do Governo. Não nos espantava que houvesse alguma inépcia governamental... mas duvidamos que seja só o Governo o responsável por atrasos no funcionamento da Amalga e pela, convenientemente esquecida por alguns, falta de fundos para o Aeroporto de Beja (desse tema tratou o nosso confrade Kropotkine na posta abaixo).

A voz forte que alguns reclamam pode não ser o suficiente para resolver os males do Alentejo. Conforme se lê no artigo citado abaixo são alguns autarcas alentejanos que empatam a definição de uma Grande Área Metropolitana exigindo uma ComUrb de contornos dignos de um país 'do outro lado do espelho'. De um reflexo enganador e de limites ténues da realidade concreta.
Deixemos a Alice onde está, no País das Maravilhas. Falemos dos Alentejanos.
Quantos de nós se apercebem dos custos que trazem para o futuro dos nossos filhos as guerrilhas a que temos assistido?
Pois é... Neste caso não se está perante um "assunto de eleitos", como disse o citado José Transmontano. Será antes um assunto de alentejanos e um sério problema para o seu Futuro. Querer fazer assentar uma futura ComUrb no assentimento de todos os autarcas do Baixo Alentejo e dos concelhos alentejanos do Distrito de Setúbal é trocar o certo pelo incerto.
O certo seria a integração negociada dos concelhos 'cá de baixo' na ´GAM' (que passaria, por exemplo, por uma distribuição racional dos vários órgãos e secretarias pelas cidades do Alentejo).
O incerto será a distribuição destes concelhos alentejanos mais meridionais numa ComUrb que se avalia problemática.
Não pensem os políticos cá da casa que os alentejanos não 'toparam a jogada' do PS -e do PSD até há alguns meses: Face ao descalabro do PCP e à repercussão que a atribulada governação que o PSD e o PP têm produzido nos eleitores, os socialistas esperam, o que é quase certo, um aumento das autarquias governadas em seu nome. Desta realidade pretendem retirar a força suficiente para criar uma ComUrb que satisfaça as ambições pessoais dos políticos desta área... Mas estamos a um ano das autárquicas.
Às vezes um ano é muito tempo.
Se pensarmos que antes das 'autárquicas' é preciso apresentar projectos devidamente elaborados para que os alentejanos possam usufruir de um dos últimos 'balões económicos de oxigénio' que a Comunidade Europeia se prepara para nos atribuir, então facilmente se vê que estamos perante uma impossibilidade! É impossível gerir o calendário dos eleitos com a necessidade dos eleitores.Daqui se infere que este não é claramente um assunto de eleitos! Antes fosse...
O mais que certo, perante este quadro, é que se faça um disparate qualquer.


"Descentralização

Presidente da CCDR faz avisos


O presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Alentejo, João Transmontano, apelou esta semana a uma rápida definição do modelo de organização administrativa no Alentejo, matéria que continua a dividir os autarcas da região. "É preciso definir, o mais rápido possível, qual o modelo de organização no Alentejo, atendendo à nova geração de fundos Comunitários para o período 2007/2013", sustentou o responsável da CCDR do Alentejo.
Em declarações à Agência Lusa, João Transmontano afirmou-se preocupado com a inexistência de um consenso entre os autarcas do Alentejo quanto ao novo figurino de descentralização administrativa, que prevê a criação de novas áreas metropolitanas e comunidades urbanas e intermunicipais. Apesar de desafiar os autarcas a definir o novo modelo, João Transmontano recusa-se a tomar posição sobre a matéria, alegando ser "um assunto dos eleitos".
As novas realidades na administração local e regional foram debatidas, em Évora, num fórum promovido pelo Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Administração Local (STAL), na última quarta-feira, em que foi criticado o novo quadro legal. De acordo com o STAL, a nova legislação visa "a subversão das disposições constitucionais", que reservam às autarquias um importante papel na prossecução de interesses próprios das populações e definem as regiões administrativas como pilar fundamental da descentralização do Estado".
Apear de considerar que o novo figurino "não substitui as regiões administrativas", o presidente da Câmara Municipal de Montemor- o-Novo, Carlos Pinto Sá, voltou a defender, durante os trabalhos, a criação de uma Grande Área Metropolitana (GAM), como forma de "dar voz ao Alentejo".
A região do Alentejo abrange 47 câmaras municipais, integradas nos distritos de Portalegre, Évora e Beja e quatro concelhos do distrito de Setúbal, sendo 21 lideradas pelo PS, 19 pela CDU e sete pelo PSD.
O novo modelo de organização administrativa dos municípios continua adiado no Alentejo, sobretudo devido às divergências partidárias que persistem entre os autarcas do distrito de Beja em torno de uma área metropolitana ou de uma Comunidade Urbana. A criação de uma GAM, que reúna os 47 municípios alentejanos, acolhe o consenso das autarquias dos distritos de Évora e Portalegre, mas o processo "emperra" em Beja, por as forças políticas locais ainda não terem chegado a um entendimento. "

novembro 06, 2004

Perplexidades

Confesso que a questão da Empresa do Aeroporto de Beja me deixou um bocado perplexo.

Julgo que a vertente de quem é nomeado ou deixa de ser nomeado para a administração, se representa interesses mais ou menos opacos ou transparentes, se é nomeado como pagamento ou cobrança de favores de lideranças regionais com ou sem expectativas de ascenção da insignificância, se têm mordomias acima da média ou da mediana, é pouco profícua. É assim! Infelizmente é assim.

Raramente neste país as pessoas são nomeadas para cargos públicos ou para-públicos por via da apreciação e mérito curricular como defendia Weber. Um dia destes verificar-se-á que alguém avança com o moto de um candidato vencedor a Prefeito da cidade de São Paulo, aqui há umas décadas atrás, e que mandou colocar cartazes que diziam "Rouba mas Realiza!" Este já quase não é um mal, é uma característica estatística saliente dos tempos... Adiante...

O que me deixa perplexo, é que não se entenda necessário fechar a porta à especulação, clarificando o que de facto aconteceu. O silêncio parece-me sinónimo de uma arrogância só possível pela total ausência de espirito crítico. Será mesmo possível que as gentes estejam inóculadas de indiferença ou descrença?

Não tendo produzido nenhuma explicação, em seu lugar, assistimos a uma bizarra discussão entre méritos e deméritos e comparações entre aerodromos e aeroportos... Perdoem-me, mas, isso é verdadeiramente patético... Pode bem ser estimulante numa qualquer classe de jardim de infância, e nessa circunstância é até um fase normal de afirmação identitária...tipo a minha é maior que a tua, ou o meu pai é mais rico que o teu...

A oportunidade perdida parece-me demasiado importante para um região inteira. Ou sub região ou outra nomenclatura que queiram utilizar, a mim pouco me importa o termo. A perda da oportunidade sim, essa é vergonhosa. Num distrito descapitalizado, parco em empreendedorismo, com desemprego, com sistemática deserção dos seus naturais, é triste que não se tenha vislumbrado que para além do imediatismo de x postos de trabalho, e de y de aumento de compras em estabelecimentos comerciais, de z% de potencial aumento do PIB regional existiam outros gradientes verdadeiramente estratégicos. O trágico, porventura, é que nem isto se vislumbrou...

Uma indústria deste tipo pode motivar efeitos de arrasto consideráveis. Poderia ter sido um dínamo... numa lógica de cluster de fornecedores de serviços à empresa polo, numa lógica de fileira, com o surgimento de fornecedores de componentes com incorporação nacional, numa lógica de desenvolvimento de actividades imateriais conexas, com protocolos de I&D, com serviços de formação profissional, com actividade de procurement, com desenvolvimento de sectores de turismo, de sectores de marketing, de turismo de qualidade...

Servindo de efeito de demonstração com capacidade de por os actores politicos à procura de outros potenciais, enfim a literatura de estratégia de desenvolvimento regional possui case studies para as pessoas procurarem soluções, a literatura de desenvolvimento tecnológico também, e depois há o mundo real, com ou sem literatura abundam casos em que uma pequena alteração destas relançou regiões...

O que parece mais ou menos evidente é que não foi nenhum quadro teórico a enquadrar uma decisão, terá sido antes o pragmatismo da ignorância? Terá sido o umbigo do interesse pessoal e mesquinho?

É pena que se tenha perdido uma oportunidade destas, infelizmente é típico...

Infelizmente aqui há muitos anos atrás, testemunhei, um pouco mais a sul do Aeroporto de Beja um caso paradigmático. Em face da queda das barreiras administrativas do condicionamento industrial, numa moagem assistiram ao desaparecimento dos clientes que até ali tinham vindo de burrico comprar venerandos ao suserrano local uma saquita de farinha para fazer um pãozinho... os clientes, esses mal agradecidos deixaram paulatinamente de aparecer. O suserrano não foi à procura deles, porque isso ficava mal a um marquês da nêspera. Veio a saber por emissários, que os malvados de Lisboa dispunham de uma frota de carrinhas que distribuiam a farinha colocando-a no monte mesmo à porta do velhote que entretanto deixara o burrito a descansar. E os manhosos de Lisboa nem sequer se ficavam por aqui, nem por sombras, tinham mesmo o descaramento de baixar o preço em dois tostões por quilo.

Cá continuaremos sentados...sem compreender muito bem porque é que a sorte é tão madrasta e porque é que temos de "penar" tanto....

Uma questão autárquica...


As autarquias são, na maior parte dos concelhos alentejanos, as maiores empregadoras locais.
São elas quem tenta fazer chegar ao poder central os anseios e os desejos das cada vez mais minguadas forças locais.
Frequentemente se associam às lutas laborais e sindicais das empresas de dimensão, cada vez em menor número, localizadas na sua área.
Para franquear o mais fácil acesso ao seu concelho de empresas com algum valor tecnológico promovem loteamentos para as fixar quase a preço zero.
Muito frequentemente associam-se a reivindicações de cariz meramente político.
Os seus autarcas, portanto, funcionam à vez como patrões, receptores dos anseios das forças vivas locais, representantes reivindicativos de lobies sindicais, económicos e políticos.
Estes interesses são geralmente contraditórios e contraproducentes.

Tem sido assim...
Até quando serão suportavelmente geridos estes interesses? Até quando esta linha de conduta faz sentido?

Outra piquena nota...

Tenho reparado que para a maioria dos meus conterrâneos, a teleologia parece continuar a ser...entrar anónimo na vida, não levantar ondas pelo caminho e, abandonar este vale de lágrimas incógnito.

Não obstante, para alguns outros, reparo que a sede de pequeniníssimos protagonismos parece afectá-los como uma virose...não quero acreditar, contudo, que, a insuportável pequenez da sistemática utilização, sem imaginação, da falácia ad hominen, que tenho registado em publicações e crónicas dos poucos orgãos de comunicação deste Alentejo, que entretanto comecei a ler com avidez, traduza uma táctica para dissimular uma conivência medíocre, um compadrio silencioso e cumplíce. Como é sugerido por alguns companheiros da Torre. Que falam de silêncios insuportáveis sobre falhanços empresariais incompreensíveis, ou falam de misteriosas reuniões de conluio em ilhas de jardins.

Quem sabe a humidade acumulada em tantos quartos de sentinela já lhes afecte o cérebro. Eles, os meus companheiros de Torre, tem uma vantagem e um desvantagem sobre mim. É que eles vivem aqui. Portanto, participaram e participam na comunidade. Eu não. Eu sou como tantos que partiram levados pelos pais em fuga. Fuga de várias coisas que agora se torna supérfulo alinhavar. Os meus companheiros sabem. Eu não. Assim sendo, eles talvez sejam mais cínicos do que eu, quem sabe, desiludidos pela claustrofobia que se apanha em ambientes de debates viciados e inúteis. Pelo desencanto de quem já fez obra ou tentou fazer sem curar de cobrar louros efémeros nem de ficar na fotografia.....Por isso eles criaram este blogue e tiveram a amabilidade de me convidar...

A minha vantagem talvez seja mesmo da distância e da doce ignorância àcerca dos actores amadores de uma peça com argumento canhestro e de cenografia muito pobre...

Muito Bem...aguardei com a devida cerimónia...

Que os companheiros desta aventura viessem aqui e acrescentassem um post, para além da declaração de intenções e demais propósitos. Contudo, parece que se estão a acanhar.

Ora, gostava de acrescentar qualquer coisa à declaração inicial. Eu, como fundador de um novo partido seria mesmo caso para inquirir se as diversas terapias teriam algum efeito... mas...também não estou por aqui, como de resto por ali... para me fazer convidado de nenhum dos partidos existentes... nem alimento a expectativa de que este "mecanismo" seja o caminho para obter algum "empregozito", quem sabe de terceiro secretário da delegação local do Instituto da Juventude ou do Instituto da Velhice...muitissimo menos para potencial vereador de qualquer junta de freguesia ou paróquia...

Portanto, a minha participação aqui é quase asséptica, inóqua e inofensiva... para essas almas.

Gosto mesmo de por aqui andar, uma vez que por aqui nasci e por aqui provavelmente repousarão os ossos ou as cinzas que é mais moderno e ecológico. Entre esses dois marcos...entristece-me alguma coisa do que vejo e alegra-me alguma coisa do que sinto.... até logo...

novembro 05, 2004

Por estes Montes afora

Queremos ser um dos, cada vez mais reduzidos, veículos de expressão da Sociedade Civil alentejana.
Neste blogue não nos interessa perguntar às pessoas de onde vêm. Não temos nada a ver com a sua origem e estamo-nos nas tintas para o seu destino.
Já aqui deixamos uma mensagem forte: não queremos fundar um partido.
A nossa vontade, o nosso empreendimento, tem um objectivo apenas: acordar sociedade civil a participar activamente na construção de um Alentejo vivo.
Todos nós temos o nosso monte. Uns moram no Alentejanando, outros no Anarca Constipado, outros na Terapia outros no Ideias Soltas e outros na Planície Heróica. Gostamos dos defeitos todos dos nossos montes e queremos manter as suas potencialidades e virtudes.
Acontece que é necessário ir à vila fazer compras -café, farinha, tabaco, um corte de tecido para a filha casadoira...-, rever amigos, falar de assuntos e dizer coisas sobre coisas que nos dizem respeito enquanto membros de uma comunidade, saber as novidades, intervir. Em suma, saímos dos nossos aposentos para a "Agora".
Criticaremos sem piedade como nos nossos montes, mas tentaremos sempre apontar um outro caminho, sem cair no criticismo tantas vezes inconsequente e improcedente, procurando ser úteis à sociedade civil. Buscamos, em suma, dar o nosso melhor contributo para que o Alentejo saia do atoleiro que todos, sem excepção, permitimos que ele chegasse. É que queremos viver aqui, neste Alentejo que querem fragmentar.
Esta Mesopotâmia, esta terra de chegadas e partidas, é o nosso mote, a nossa bandeira. Não somos heróis de pacotilha, não morreremos por ele assim sem mais nem menos... mas queremos que nele se viva melhor. Queremos, acima de tudo, não desistir da esperança de que possamos ter e ser mais e melhor. E esta terra tem potencialidades, muito para além daquelas que uma determinada clique política nos quer fazer crer.
São essas virtualidades que queremos incentivar, apontar, discutir e interagir.
Serão nossos convidados todos aqueles que se propuserem pugnar pelo sucesso do Alentejo. Esses serão os verdadeiros alentejanos. Neste sentido, não atenderemos aqueles que se 'armam aos cucos'. Todos aqueles que pretendam fazer da nossa terra um ninho para a sua ninhada, menosprezando a restante passarada serão aqui denunciados, apontados e repudiados.
Podem, no entanto, os prezados leitores de coluna bem vertical, sem máculas nem rabos escondidos ficar descansados. Deste lado estão homens com defeitos. Não pretendemos ser luminárias omniscientes, nem matilha assanhada.
Procuramos - alheios a qualquer diletantismo mais inteligente e pertinaz para as nossas esmifradas consciências- criar um espaço de discussão, ligado aos bons valores da amizade, da justeza, do serviço público, da honestidade, da frontalidade, da sensibilidade, da igualdade, da fraternidade, enfim do regresso da ética a todos os níveis do poder, seja ele político, económico, financeiro, religioso ou de qualquer outra índole.
Prometemos, desde já, ouvir o que tenham para nos dizer, anotar a justeza das vossas observações, receber frontalmente as críticas bem intencionadas que nos apontem, atender e publicitar todas as informações que tenham a ver com o desenvolvimento harmonioso do nosso Alentejo e das suas gentes, apreciar o trabalho de quem, com honestidade, promove a sua comunidade, tratar com o mesmo
rigor os comentários de todos os leitores, olhando à argumentação promovida e não à sapiência presumida...
Somos HOMENS e agiremos como tal. Nesse sentido, com elevação e amizade, assumiremos as nossas discordâncias face aos textos e ideias expostas por qualquer um dos autores deste espaço -não, não fique o leitor mais libidinoso à espera de um remix de um qualquer Big Brother. Da mesma forma pode o leitor ficar descansado: prometemos não agir de forma canídea, não atacaremos ninguém em matilha nem garantiremos nenhuma subserviência acrítica a quem quer que seja.