novembro 20, 2005

Júlio César: um brasileiro

Este brasileiro negro, de feições agradáveis, bondoso e delicado trabalha, com outros três compatriotas, em jardinagem, aqui na Planície.
Estudou até que o estado brasileiro deixou. Não fez o Vestibular porque era pago mas terminou o Secundário. 'Sonhava com a veterinária em garoto' -disse-nos-, hoje anseia por se valorizar. Acabado o Secundário 'fez-se à vida' e veio cá parar.
Agora, depois de ter conversado connosco, mostra-se entusiasmado com a possibilidade de poder tirar um curso de vertente agrícola no tão maltratado e tão pouco frequentado Politécnico de Beja. (Como detestamos criar falsas expectativas a quem quer que seja, aconselhámo-lo a, para já, tentar estudar à noite enquanto não se resolve a sua situação burocrática.) De qualquer forma, a situação deste moço deixou-nos a pensar.
Os cursos agrícolas são desprezados pelos alentejanos e pelos naturais de outra regiões deste país. É muito estranho que se dedique o Alqueva a uma Juventude que não opta pela agricultura. É ridículo que as terras 'cá do sítio' mudem de mãos depois de construído o 'grande lago'. É escandalosa a pretensão de fazer do Alentejo um imenso campo de golfe rodeado por reservas de caça. É ridículo -mas compreensível depois do que se disse- que os nossos jovens continuem a ver a agricultura como um parente desprezível das actividades económicas. É irreversível, por este andar, que todos estes campos acabem a ser tratados por novas mãos.
Recordamos o nome deste brasileiro de 24 anos: Júlio César.
Pois é... será a Planície a sua Gália?

(Publicado também na Planície Heróica)

novembro 17, 2005

Cuba – Beja ( de Comboio)

A automotora que despeja 50 pessoas, pelas 9h00m, todos os dias da semana, em Beja é um autocarro sobre carris. Um autocarro barulhento, agitado, pouco limpo, velho e desconfortável. Conversar com um parceiro de viagem é um incómodo tão directamente proporcional ao ruído que se ouve que o melhor é estar calado. Ler também não é solução. Pela mesma razão e porque a luz é tão frouxa quanto a trepidação é acentuada. Enfim, os turistas – os de chinela no pé – devem achar graça ao pitoresco da viagem. Eu, há 20 anos atrás, quando no Tua viajei em comboio semelhante também achei. Os que não abalaram de cá, os que cá continuam a trabalhar, os que, em terra de mobilidade pública tão reduzida, continuam a vir para Beja todos os dias na tal automotora, esses, duvido que apreciem a viagem no tempo.

[em simultâneo com o EpiCurtas]

novembro 04, 2005

Região de Turismo do Alentejo

As regiões de turismo alentejanas são dos frutos mais perversos de uma certa submissão das realidades regionais à realidade dos interesses políticos e dos interesses de algumas capelinhas que se lhes acoplam.
Há uns tempos atrás, em Janeiro, tinhamos aqui referido o contra-senso de concelhos como os de Alvito, Cuba, Vidigueira, Viana do Alentejo e Portel, por exemplo, se encontrarem divididos por duas regiões de turismo. Esses eram os tempos da famigerada Comurb e todas as opiniões que contrariavam esta ideia eram perfeitamente ignoradas. Apostava-se então no turismo no espaço rural, -que afiançámos exageradamente que nunca utilizaríamos por causa do cheiro a mofo- como agora se aposta nos campos de golfe. Realizavam-se -e publicavam-se!!!! nos jornais da região, com direito a parangonas e tudo- estudos de mercado com base nas respostas de 199 turistas 'apanhados descuidados nas Portas de Mértola'. O oito ou oitenta habitual neste país.
Eis que esta temática -a da excessiva e injustificada fragmentação das regiões de turismo alentejanas- foi agora levantada no Diário do Alentejo por um gestor do meio. Por um homem que investiu aqui milhões de contos e tem a autoridade necessária para criticar a falta de hotéis no Baixo Alentejo, as acções desconchavadas das várias regiões alentejanas, a incapacidade de nós, alentejanos, investirmos tempo, dinheiro e conhecimento no azeite e no vinho, a incapacidade dos propalados gebinetes do investidor. Um homem que fez muitas e acertadas críticas às opções que têm (des)norteado o nosso Alentejo e que aqui na Torre já têm sido criticadas.
Esperemos que estas críticas não caiam no saco de sempre, naquele ali à esquina da capela... no que está mais roto.